A clínica do vazio: as patologias ligadas à falta de sentido
A clínica do vazio: as patologias ligadas à falta de sentido
Freud dizia que o homem moderno sofria por causa de suas renúncias — o preço da civilização era a neurose. Hoje, talvez estejamos diante de outro tipo de mal-estar: o preço da liberdade sem limite é o vazio. Se antes o sintoma era um grito reprimido, hoje ele é um silêncio desolado.
Na clínica contemporânea, o analista não encontra mais o sujeito dividido entre o desejo e a lei, mas o sujeito esvaziado, sem desejo, sem lei, e muitas vezes sem linguagem. O discurso social do “tudo é possível” dissolveu o impossível simbólico, e com ele, o próprio sujeito. Lacan já advertia: “o desejo é o desejo do Outro”. Mas o que resta quando o Outro — esse lugar do sentido, da lei e da falta — entra em colapso? Resta o gozo sem direção, o acting sem narrativa, o corpo sem palavra.
André Green nomeou isso de o complexo da mãe morta: uma presença sem vida, um vazio no lugar do objeto amado. Muitos pacientes hoje parecem carregar esse luto congelado — não pelo que perderam, mas pelo que nunca chegou a existir. O “nada me toca” tornou-se o novo sintoma; uma defesa radical contra o excesso de estímulos, um recuo diante de um mundo saturado de imagens e carente de significação.
Winnicott talvez dissesse que esses sujeitos nunca encontraram um “ambiente suficientemente bom” — um espaço onde o eu pudesse jogar, criar, se inventar. Em vez disso, cresceram em meio a ruídos, demandas e telas, sem um outro que sustentasse a ilusão necessária para que o ser se tornasse. O resultado é uma forma de existência que não adoece no sentido clássico, mas se esvazia, se automatiza.
Para Bion, quando o pensamento não encontra um continente — alguém capaz de metabolizar o caos emocional — ele se transforma em desespero sem nome. A clínica do vazio é, nesse sentido, a clínica da incontinência psíquica: o sujeito não pensa, ele vaza.
E se Bauman descreveu nossa época como “líquida”, é porque o sólido simbólico se desfez. A fluidez contemporânea dissolve os vínculos, as narrativas e até a identidade. O sujeito líquido escorre pelos dedos do analista, pedindo ajuda sem saber para quê, desejando sem desejar.
Frente a esse cenário, o analista é convocado a um novo tipo de escuta — uma escuta do nada. O trabalho já não é mais interpretar o sintoma, mas sustentar o vazio. Não preencher, mas habitar junto o sem-sentido até que algo comece a se formar. O analista, diria Lacan, deve ser o lugar onde o sujeito possa ouvir o eco de sua própria falta.
Porque o vazio não é o fim — é o começo. O nada pode ser fértil. Sob o silêncio do “não sinto nada” pode emergir o primeiro murmúrio do desejo: o desejo de desejar. E é aí que a psicanálise reencontra sua força subversiva: não ao prometer sentido, mas ao permitir que o sujeito o invente.
E então, diante do vazio...
O que fazer quando o sofrimento já não fala, apenas silencia?
Será o vazio um sintoma a ser curado — ou uma verdade a ser escutada?
Como sustentar um espaço onde o nada possa existir sem ser imediatamente preenchido?
Quando o sujeito perde o desejo, o que resta do humano?
E quando o analista se confronta com esse espelho sem reflexo, o que nele também se apaga?
Teríamos nós, como sociedade, medo do silêncio porque ele denuncia nossa falta de sentido?
O que é, afinal, o vazio — ausência ou excesso?
Fuga do real ou sua forma mais pura?
E se o vazio não fosse um erro, mas uma passagem?
Quem somos nós quando já não sabemos o que queremos?
E o que pode nascer — em nós, entre nós — depois que tudo parece ter desmoronado?
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