O Espelho Quebrado: Ideal do Eu e a Tirania do "Melhor Você"






Ideal do eu e metas irreais: quando o Ano Novo vira um espelho cruel 




Todo começo de ano parece trazer a mesma pergunta, embrulhada em entusiasmo, em esperança: “Quem eu deveria ser agora?”. A famosa ideia de “Ano Novo, Vida Nova” não é só sobre fazer planos, mas sobre responder a uma cobrança silenciosa de melhoria constante. Ser mais feliz, mais produtivo, mais interessante. Como se simplesmente seguir sendo quem se é já fosse uma espécie de falha. 

Freud nomeou de Ideal do Eu essa instância que funciona como modelo interno de perfeição. É a partir dela que o sujeito se avalia e se julga. O problema surge quando o ideal deixa de orientar e passa a humilhar. No Ano Novo, ele costuma ganhar força: listas de metas irrealistas, rotinas inalcançáveis, promessas de felicidade plena. 

As redes sociais não só intensificam esse movimento, elas o colocam em modo turbo. Entregam versões editadas da vida alheia e as vendem como se fossem manuais de como a vida “deveria” ser. Lacan já advertia: o eu se constitui no campo do olhar do Outro. Hoje, esse Outro é um amontoado de perfis, likes e visualizações que nunca dorme e está sempre disponível para comparar, julgar e contabilizar. O resultado? Um sujeito sempre em falta, sempre aquém de um ideal que muda o tempo todo e nunca se alcança. 

  

Nas redes, esse ideal não é espontâneo, ele é fabricado e inflado por algoritmos que calculam o que prende mais o nosso olhar. O feed do Instagram funciona como um espelho sem rachaduras, onde só cabe uma felicidade lisa, sem falhas, e onde a falta é tratada como defeito de fabricação. Freud já nos dizia que o Ideal do Eu é herdeiro do narcisismo infantil: projetamos nele tudo o que gostaríamos de ser para tentar reencontrar aquela sensação de perfeição da infância. 

  


O problema é que, nesse cenário, o sujeito não só sofre, ele também goza disso. Goza na comparação, na aprovação, no like, na performance de si. O mercado agradece: quanto mais distante do ideal, mais ele promete soluções — cursos, produtos, rotinas, “métodos” para finalmente se tornar aquele eu idealizado. Clinicamente, o efeito é um sujeito exausto, culpado, sempre devendo a si mesmo e ao olhar do Outro, sem espaço para uma pergunta fundamental: em vez de “quem eu deveria ser?”, o que seria, afinal, poder sustentar quem eu já sou, com a falta incluída? 

Quanto mais alto colocamos a barra das metas, mais o nosso Eu real se sente pequeno e insuficiente. Ao perseguir metas irreais de produtividade e felicidade, não estamos evoluindo — estamos apenas nos punindo por sermos humanos, ou seja, seres faltantes. Será que sua meta de ano novo é um desejo seu ou apenas uma tentativa desesperada de ser amado pelo olhar do outro? 

 

A psicanálise não propõe abandonar os ideais, mas questioná-los. De onde vem esse ideal? A quem ele serve? Quando o ideal sufoca o desejo singular, ele deixa de ser motor e se torna fonte de sofrimento. Talvez o Ano Novo não precise de um “eu melhor”, mas de um eu menos capturado por imagens de perfeição. 


Bibliografia básica 

  • Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. 

  • Freud, S. (1923). O eu e o id. 

  • Lacan, J. (1949). O estádio do espelho. 

  • Birman, J. (2012). O sujeito na contemporaneidade. 

 

 


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