O “Lado B” das Redes Sociais: Filtros de rosto, vazio de alma: a dismorfia digital e o olhar do Outro na fragmentação do eu



Nunca foi tão fácil se olhar
 e da mesma forma, nunca foi tão difícil se reconhecer. As redes sociais nos oferecem um espelho permanente, polido por filtros, ângulos e algoritmos. Um espelho que não apenas reflete, mas corrige, suaviza e promete uma versão “melhor” de nós mesmos. Mas o que retorna, o que acontece, quando olhamos demais para esse reflexo? Talvez não seja o rosto que esteja distorcido, mas o ego que já não se sustenta sem a aprovação externa, pois a
 distorção não está na carne, mas na alma: o ego, medicado por dopamina virtual, esquece de se sustentar por si. É por isso que cirurgias plásticas inspiradas em filtros explodem – não corrigem o corpo, mas tentam reconquistar o Olhar do Outro e essa inversão do rosto para o ego, questiona se estamos treinando o inconsciente para uma existência algorítmica? Sem aprovação externa, o que resta do desejo autêntico? Experimente: delete um app por 24 horas e observe o que emerge. O ego se reconstrói ou implora pelo retorno? 

 


Freud, ao forjar o narcisismo, expôs a ferida fundante do sujeito: precisamos ser amados para existir. O ego se ergue sobre investimentos libidinais alheios. Na era digital, porém, esse amor vira métrica fria – likes, views, seguidores. Afeto quantificado. Desejo rankeado. Sujeito, mero performer. 

Nas redes, vivemos um narcisismo terciário: o ego investe libido nos likes, externalizando a autoestima. A aprovação vira prótese psíquica – sem ela, o Supereu punitivo ataca ("Você é feio, irrelevante"), ecoando a melancolia freudiana onde o objeto perdido (a validação) é incorporado como auto-ódio. 

É nesse cenário que emerge a chamada dismorfia digital — não apenas como uma insatisfação estética, mas como um sintoma contemporâneo de um ego fragmentado. Fora do filtro, o rosto parece insuficiente. O corpo parece errado. A imagem real já não coincide com o ideal. Mas esse ideal não nasce do desejo próprio; ele é produzido pelo olhar do Outro. 


Lacan foi preciso ao afirmar: “O desejo do homem é o desejo do Outro.” Nas redes sociais, esse Outro é múltiplo, anônimo e voraz. Ele observa, julga, consome ou ignora com um clique. Publicar uma foto deixa de ser expressão e passa a ser um pedido silencioso: “Você me vê?” 

Mas o que acontece quando o olhar não vem? Quando o post “morre” em poucas curtidas? Quando o algoritmo silencia? Surge a angústia — não apenas a frustração estética, mas algo mais profundo: a sensação de inexistência simbólica. Se ninguém reagiu, eu estive mesmo ali? Se ninguém curtiu, eu realmente existo? 

Lacan nos lembra que o eu se constitui no estádio do espelho, quando o sujeito se reconhece numa imagem externa e ali encontra uma ilusão de unidade. Mas o que acontece quando esse espelho nunca se apaga? Quando ele vibra no bolso, notifica, exige atualização constante e fragmenta a imagem em stories efêmeros, selfies editadas e avatares mutantes? O espelho, agora, não unifica — ele divide. O ego imaginário, antes compensação jubilosa da fragmentação corporal, torna-se prisão algorítmica: cada like cola um caco temporário, mas o Real irrompe no vazio entre posts, na angústia do não-visto. Somos multiplicidades em loop eterno, escravos de um olhar que nos objetifica sem nunca nos possuir de verdade. 


Winnicott falava do falso self como uma organização defensiva que surge quando o ambiente não sustenta o verdadeiro self. Não é difícil perceber como as redes se tornam um terreno fértil para esse falso self performático: sempre bem editado, produtivo, interessante, feliz. Um self que funciona, mas não sente. Que aparece, mas não se sustenta. Que é visto, mas não é vivido. Nos feeds, cultivamos essa fachada complacente – o "objeto bom" para o Outro digital –, sacrificando a espontaneidade criativa do true self em prol de likes e validações. O preço? Um vazio crônico, onde o play da vida real dá lugar ao script algorítmico, e o sujeito se dissocia, performando existência sem habitá-la. 

Quantas pessoas hoje sabem exatamente como parecer — mas já não sabem como sentir?




 

O filtro que afina o nariz e suaviza a pele também anestesia o contato com a própria falta. Ele promete completude onde há vazio. Mas, como toda promessa ilusória, cobra um preço: quanto mais perfeita a imagem, mais distante o sujeito de si mesmo. Freud já advertia, em O Mal-Estar na Civilização, que o homem se torna um “deus protético” — ampliado por suas criações, mas ainda atravessado pela falta. As próteses digitais são impecáveis; a alma, não. 

Byung-Chul Han descreve a sociedade do desempenho, na qual o sujeito explora a si próprio acreditando estar se realizando. Nas redes, essa exploração se dá no nível da imagem e do afeto. Trabalhamos nossa aparência, nosso carisma e nossa intimidade — gratuitamente — em troca de migalhas simbólicas de reconhecimento. O sujeito se oferece ao consumo acreditando estar se expressando. Viramos autoexploradores infatigáveis: editamos selfies até o amanhecer, encenamos vulnerabilidades em reels "autênticos" e monetizamos o privado em stories, tudo sob a ilusão de liberdade. Han nos alerta para o burnout psíquico dessa positividade tóxica – sem o chicote externo do disciplinamento foucaultiano, o superego digital nos fustiga internamente, transformando desejo em métrica e existência em performance exaustiva. 

E então surge a pergunta incômoda: 
👉 Postamos porque queremos compartilhar ou porque precisamos provar que existimos? 

O “like” não é amor. É um sinal. E sinais não preenchem faltas estruturais. No máximo, as silenciam por alguns segundos. A dependência do olhar — um olhar que não acolhe, apenas avalia — talvez seja uma das marcas mais evidentes do sofrimento psíquico contemporâneo. Lacan diria que buscamos no Grande Outro uma resposta ao enigma do desejo, mas o algoritmo devolve apenas equações frias: +1 curtida = eu existo, 0 views = abismo. Freud veria aí a melancolia moderna, onde a libido se apega a objetos parciais digitais, mascarando o luto pelo afeto pleno. Resultado? Uma angústia difusa, viciante: o scroll compulsivo como tentativa vã de tapar o buraco no Outro, deixando-nos mais vazios a cada notificação. 

A psicanálise, nesse cenário, não propõe o abandono das redes, mas a escuta do sintoma. O que esse excesso de exposição tenta tamponar? O que esse rosto filtrado tenta esconder? O que esse pedido incessante por validação grita em silêncio? 

Talvez a pergunta mais perturbadora não seja “Por que precisamos tanto de likes?”, mas sim: 
👉 O que acontece conosco quando ninguém está olhando? 
👉 Quem somos quando o filtro cai? 
👉 Ainda suportamos existir sem plateia? 

Pensar o “lado B” das redes sociais é aceitar que, por trás da imagem impecável, pode haver um sujeito exausto de performar. E que, talvez, o gesto mais subversivo hoje seja simples — e radical: sentir sem postar, existir sem provar, desejar sem audiência. 


Afinal, nem todo vazio precisa de filtro. 
Alguns precisam, urgentemente, de escuta. 

 

 

'A sociedade do desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito explora a si mesmo até consumir-se completamente (burnout)' 

    Byung-Chul Han.  

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