Traumas Silenciosos: Quando Não Há Lembrança, Mas Há Dor
Você já sentiu um aperto no peito sem motivo aparente? Uma ansiedade que surge do nada em um domingo ensolarado? Ou talvez uma dificuldade crônica em confiar, mesmo quando a pessoa à sua frente nunca lhe deu razões para dúvida?
Você finge normalidade, mas algo range no peito como engrenagem quebrada – um aperto sem motivo, ansiedade do nada, relações que ruem sem porquê, pois, nem toda dor grita com cena ou imagem; às vezes, falta até a lembrança, e ainda assim o corpo pesa, adoece sem causa, trai com medos difusos e vazios que ecoam, muitas vezes, buscamos a causa do nosso sofrimento em fatos narráveis: uma demissão, um término, um luto. Mas existe um tipo de dor muito mais insidioso. É a dor que não tem nome, não tem imagem e, curiosamente, não tem lembrança, mas por que insiste em justificar tudo com histórias narráveis, quando o inconsciente repete o indizível no sintoma, nos sabotadores diários?
A psicanálise nos convida a desconfiar da ideia de que só sofre quem “se lembra”.
Freud explode o mito da memória clara: o trauma irrompe como repetição compulsiva em Além do Princípio do Prazer, ou no Nachträglichkeit – evento banal que retroage como veneno, como na histeria onde um olhar infantil vira paralisia adulta sem flash consciente. Lacan fura mais fundo: é o Real, buraco irrepresentável além da linguagem, que grita no pânico de metrô lotado – não há assalto lembrado, só excesso corporal repetindo colapso primário. E você, já sentiu isso rasgando sem nome? O que explode no seu peito quando o silêncio vira pânico? Por que seu corpo treme ante o nada, traindo o que a mente jura esquecer? Será que essa dor sem história é o seu Real te chamando, ou você ainda finge que controla o vazio?
Ferenczi, o herege, acusa: traumas precoces sem psiquismo para simbolizar viram dissociação corporal, "transe alucinatório" onde o ego se parte, tatuando tremores e dores crônicas – sobreviventes "esquecem" violência, mas o corpo repete em somatizações narcísicas. Winnicott culpa o não acontecido: falhas ambientais no holding materno, ausência de olhar ou cuidado, deixando self despedaçado; Adultos depressivos desabam em vínculos sem abuso óbvio – eco de desamparo primordial. Como lembrar o que faltou, se você nem sabia que devia estar lá?
Bion horroriza: sem reverie materna, o bebê afunda em terror sem nome, pulsões de morte vorazes que atacam o pensamento; pacientes psicóticos ejetam monstros no analista, perpetuando silêncio doloroso. Bollas distingue: não é recalcado, é não-representado, memória implícita gravada no sistema nervoso – você é o trauma, na postura, gastrite, insônia, sabotagens. O corpo arquiva o que a mente rasga; é tatuagem invisível, páginas arrancadas do enredo vital. E se esse terror voraz ainda ruge no seu silêncio, sabotando cada vínculo? Por que sua insônia grita o que você cala como "normal"? Você é o vazio que devora, ou o vazio finalmente te engole? O que se ejetaria se um analista te encarasse agora?
A cultura exige: "O quê aconteceu? Infância difícil? Abuso óbvio? Traição marcante?" – mas o maior tormento é doer sem história, vazio que dita escolhas ruins, parceiros tóxicos, prisões emocionais, carreiras travadas, vícios sutis, enquanto você jura "tudo normal, sou assim mesmo". Pare de romantizar ansiedade sem motivo, raiva gratuita, vida estagnada, corpo que falha, solidão autoimposta, explosões impulsivas! Psicanálise provoca: não force lembranças perdidas como caça ao tesouro inútil, dê contorno ao indizível via escuta radical, silêncio compartilhado – cure transformando dor muda em afeto vivo, grito calado em laço possível. E você, vai seguir culpando o "agora" ou encarar o vazio que te rege? Qual prisão sua é eco de ausência antiga?
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